quinta-feira, 15 de julho de 2010

Encontro casual, palavras e auto-engano

Uma parada para abastecer o carro. Por alguns minutos hesitou em não ser atendida em uma determinada bomba, preferiu 'a de sempre'. Essse tempo foi o suficiente para que as coisas acontecessem. Subitamente, um susto. Ela imaginou um assalto, uma ofensa e, com coração aos pulos, ela raivosamente se preparou para reagir quando deu de cara com aquele rosto tão familiar. O coração teve outro sobressalto, de outra natureza, mas ela não deixou notar. Troca de palavras, tentativa de explicações para a distância silenciosa, um futuro encontro, um não desencantado, tempo passando, o frentista esperando o pagamento, a despedida, um longo beijo na face dele, um outro em sua face, mais demorado, mais audacioso e um beijo de boca longo 'roubado', muito desejado. Ao final do dia de trabalho, ao chegar em casa, ela repassava cada minuto daquele encontro. Novamente o telefone, como que respondendo protamente ao desejo dela, toca. Era ele. Pediu para encontrá-la, queria conversar, vê-la, ficar junto. Um charme de resistência de um lado, um charme de desistência do outro e finalmente cederam e começou a roda viva, de novo. Reânimo no corpo, todos os sentidos aguçados, boa conversa, noite tumultuada, um pedido, um aceite, prolongamento do auto-engano. Naquele dia, só podiam ter ido até ali, não mais que até ali.

P.S: O Beijo, de Constantin Brancusi, 1910.

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