[...] desde então, não há um só dia que meu pensamento não se fixe no que poderia ser, ou ter sido. por vezes, são momentos passageiros, outros são desejos de uma realidade, vez ou outra, surpresas pela ocorrência, mas é o mesmo de sempre; não há surpresas no que é dito, no que é feito. como um roteiro perfeito, não há improvisos. e aquilo que foi escrito é dito e feito. Isso é alucinantemente chato. como um mantra, peço que tudo se dissolva, que eu consiga me desvencilhar sem mais mágoas, bastando as que eu já tenho. visitas, aparelhos emprestados, interpretações de que isso possa significar algo e logo depois, ele, o vazio, da voz, da presença material, da ligação entre pessoas que se querem bem. mas esse vazio me faz mal e não é esse tipo de vazio que eu necessito. eu quero o vazio absoluto, do nada, por não existir mais nada, só ele, o vazio. para que, só assim, diante desse vazio, eu possa ter espaços para deixar entrar o que preciso e eu sei que faz algum tempo que eu já preciso.
Ilustração: Andréa Ferraz (deaferraz.blogspot.com)

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